quinta-feira, janeiro 29, 2026

o que está a acontecer

«Moram os que moem, e remoem e esmoem, os que se fecham à pressa e por dentro com uma mania, e os que se aborrecem um dia, uma semana, um ano, até chegar a hora pacata do solo ou a hora tremenda da morte.» Raul Brandão, Húmus (1917)

I. »Manhã alta, toda vestida de azul, com folhos brancos que o mar tecia e esfarrapava ao sabor da ondulação, a sombra escortinada na linha do horizonte ia crescendo e definindo-se em caprichoso recorte. Mais do que a terra próxima, como queriam os passageiros e a ciência náutica afirmava, dir-se-ia nuvem estática na luminosidade imperante.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

I. «Entreabre-se uma janela - "Este Novembro de 1917 continua frio mas dourado. Por isso eu hoje desci muito devagar a escadaria do banco e me detive a calçar as luvas, mirando a faixa de céu azul que sorria entre os prédios altos. Seria um verdadeiro crime não aproveitar a doçura da tarde...» Francisco Costa, A Garça e a Serpente (1944) 

quarta-feira, janeiro 28, 2026

1 verso de José Fernandes Fafe

«...Mansa, a manhã escorre pelo sono das estrelas,» 

A Vigília e o Sonho (1951) - «Ode»

Django Reinhardt, «I Love You»

terça-feira, janeiro 27, 2026

quem vota em Ventura, para além dos pobres de espírito?

1. Os traumatizados da História, aqueles que justa e/ou injustamente foram apanhados pelo turbilhão da Revolução e da Descolonização.

2. Os seis intelectuais salazaristas, nem todos assumidos, estes os melhores.

3. Cento e cinquenta nazis dos subúrbios do nosso Portugal.

4. Os ressentidos da vida, os que padecem de inveja social (oh, tantos).

5. Os desertores do CDS, que nunca o convidariam para sua casa nem para a sua mesa quando ele era comentador do Correio da Manha tv (crime e bola), mas que agora exultam com a diabolização dos terríveis últimos cinquenta anos.

7. As patetas das mulheres deles, que entre duas hóstias na igreja de Santo António se arrepiam com tanto imigrante, mas têm a sua nepalesa como criada, a sua brasileira a fazer de babá (ou vice-versa), e até o seu par de ucranianos ou moldavos como caseiros, algures.

8. Os filhinhos, desde cedo treinados para estúpidos e ceo's, que enfim, até votaram Cotrim à primeira volta.

3 versos de Florbela Espanca

«Eu quero viver contigo / Muito juntinhos os dois / O tempo que dura um beijo,» 

«Trocando Olhares» (póst., 1994)

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Vida em superfícies lisas, desinfectadas, vida no instantâneo presente. Vi há dias um filme: Le Viol. Interiores brancos, ou seja, sem cor, móveis sintéticos. E nas paredes, quadros à Mondrian -- a estéril geometria. O tempo -- criação do nosso abandono. O futuro deve inventar uma eternidade à rebours. O instante neutro.» Conta-Corrente 1 (1980) § António Ferro: «Não sou um discípulo de Óscar Wilde. Quando o li pela primeira vez, tive a impressão de que tinha sido plagiado.» Teoria da Indiferença (1920) § Jorge Amado: «Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem. Menino grapiúna, cidadão da cidade pobre da Bahia, onde quer que esteja não passo de simples brasileiro andando na rua.» Navegação de Cabotagem (1992) § Aquilino Ribeiro: «Ia-se à Senhora da lapa, à Senhora da Penha do Vouga, de cruz, estandarte e borracha à tiracolo, no bornal o pão amarelo de azeite e ovos, no merendeiro as trutas do Paiva. Em toda a parte punha ramo a nossa mocidade -- rapazes capazes de arremeter contra uma baioneta, moças a puxar para loirinhas, que por aqui não correu sangue africante.» O Malhadinhas (1922) § Machado de Assis: «Em músicas! justamente esta palavra do médico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalício começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não concluídas.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano: «4/I/73 // Exmo Senhor Prof. Doutor Marcello Caetano, / Ilustre Presidente do Conselho // Senhor Presidente, // Como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura encontra-se detido pela DGS em Caxias desde a noite de 31 de Dezembro.  A este respeito permita-me V. Ex.ª que leve ao seu conhecimento o seguinte.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (1985) - ed. José Freire Antunes 

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Murray Perahia & Radu Lupu, «Andante e Variações» (Mozart)

4 versos de Maximiano Gonçalves

«Ao leres, / Ouve a Palavra em silêncio, / Olha o corpo que tem / E prova-lhe o sabor,» 

Ouvir a Palavra (2017) - «Ode à Palavra (Ouve a Palavra)»

zonas de confronto

Ivo Andrić: «Da ponte estende-se, como um leque, todo o vale ondulante com a pequena cidade de Visegrad e as suas cercanias, com povoações aninhadas nas abas das colinas, cobertas de searas, prados e ameixoais, riscada por muros e sebes e salpicada de pequenos bosques e raros tufos de verdura.» A Ponte sobre o Drina (1945) - trad. Lúcia e  Dejan Stanković

domingo, janeiro 25, 2026

sábado, janeiro 24, 2026

o que está a acontecer

«Moram as Teles, e as Teles odeiam as Sousas. Moram as Fonsecas, e as Fonsecas passam a vida, como bonecas desconjuntadas, a fazer cortesias. Moram as Albergarias, e as Albergarias só têm um fim na existência: estrear todos os semestres um vestido no jardim.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Eu vou à frente, que esse aí está às escuras, tem as janelas de dentro trancadas. Dá como este para o caminho. A cama é alta. É um leito. Antiga, sim. A senhora conhece que é de cana! Pois será, será. Deitaram-lhe esse verniz, também mo disseram.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

«E a história. E história assim poderá ouvi-la a olhos enxutos a mulher, a criatura mais bem formada das branduras da piedade, a que por vezes traz consigo do céu um reflexo da divina misericórdia: essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos os infelizes, não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdera honra, reabilitação, pátria, liberdade, irmãs, mãe, vida, tudo, por amor da mulher  que o despertou do seu dormir de inocentes desejos?!» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

sexta-feira, janeiro 23, 2026

Red Onion Jazz Babies, «Texas Moaner Blues»

4 versos de Ana Hatherly

 «Neste ardente ardor / só tu és pausa / fuga / além-palavra» 

Volúpsia (1994)

quinta-feira, janeiro 22, 2026

zonas de confronto

Leonid Andreiev: «Assim ficou a dispor de meios com que pagar a sua clínica até se finar, já que o mal era, no parecer dos médicos, um caso sem esperança de cura.» Os Espectros (1904) -- versão de Manuel do Nascimento § Hans Christian Andersen: «Nada melhor achei do que escrever directamente ao meu amigo de juventude, o Sr. Jorge O'Neill, que, depois do falecimento do pai, passara a ser o cônsul da Dinamarca. Assim fiz, e dele recebi a resposta, a que se seguiram outras cartas, renovando nos mais calorosos termos o convite de ir eu também visitá-lo, ver a sua bela pátria, hospedando-me na sua casa e na do irmão, onde estaria como na minha própria, e resolvi tudo aceitar tão bem quanto sentimentos entusiásticos o prometiam -- e cumpriram.» Uma Viagem a Portugal em 1866 (1868) - trad. Silva Duarte § Woody Allen: «Lembro-me de uma noite em que Scott Fitzgerald e a mulher voltavam para casa vindos da festa da passagem do ano. Foi em Abril. Durante os últimos três meses só tinham consumido champanhe e, na semana anterior, vestidos a rigor, tinham lançado o carro ao mar do alto de uma falésia com trinta metros de altura, só por causa de uma teima.»  Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Mikhail Bakunin: «Duas potências apenas existem hoje, e preparam-se para o embate fatal: a potência do passado, representada pelos Estados, e a potência do futuro, representada pelo proletariado.  / Que esforço a poderia ainda salvar, não como classe, obviamente, mas como indivíduos? -- A resposta é muito simples: empurrada pela força das coisas para o proletariado, a média e sobretudo a pequena-burguesia deveriam nele entrar livremente, de livre vontade.» O Socialismo Libertário - «O movimento internacional dos trabalhadores» (1869) - trad. Nuno Messias § Ivo Andrić: «É a partir daqui que as montanhas se alargam bruscamente num anfiteatro irregular, cujo diâmetro não ultrapassa uns quinze quilómetros em linha recta. / Nesse lugar onde o Drina se precipita com toda a impetuosidade das suas águas verdes e espumosas da massa aparentemente fechada das montanhas áridas e negras ergue-se uma ponte de pedra grande e harmoniosamente talhada, com onze arcos de vão largo.» A Ponte sobre o Drina (1945) - trad.  Lúcia e  Dejan Stanković 

1 verso de Manuel Alegre

«Darei ao povo o meu poema.» 

Praça da Canção (1965) - «Do poeta ao seu povo»

quarta-feira, janeiro 21, 2026

Wynton Marsalis & Eric Clapton, «Joe Turner's Blues»

2 versos de António Jacinto

«Ao "desamparinho" da tarde / Os coqueiros são lento adeus» 

Sobreviver em Tarrafal de Santiago (1985) - «Saudades»

ucraniana CDIX (e provavelmente a última) - Ucrânia?...

Ao longo de quase quatro anos, a coluna da direita apresentou o texto de um post que escrevi logo no início da guerra e que será retirado nos próximos dias, pois tornou-se obsoleto. Mas continuará, portanto, neste blogue, a documentar o modo como um cidadão comum viu uma guerra fabricada na Europa por uma potência extraeuropeia. 

A derrota estrondosa da estratégia delineada pela anterior administração americana arrastou com ela uma União Europeia, que se encontra hoje entalada entre o nacionalismo russo, hostilizado de forma irresponsável, e o imperialismo bandoleiro americano, como se está a ver com o caso da Gronelândia. O resultado não podia ter sido pior para a miserável subserviência europeia; e pior ainda para a Ucrânia, tomada por uma clique às ordens dos americanos. 

O que restará da Ucrânia, ainda estamos para ver. O que fica da UE, cujos dirigentes não passaram de peões no jogo de uma superpotência, também.

Sem Nato, já não direi nada a propósito do futuro das repúblicas do Báltico, a não ser que mudem de política interna (minorias russas) e externa, se querem sobreviver incólumes.

E Portugal? Somos vizinhos dos Estados Unidos, como sempre tenho dito; e com os vizinhos convém ter boas relações, e mesmo assim não descansamos quanto aos Açores, atendendo ao cadastro vicinal...

Se os Estados Unidos fazem agora 200 anos, Portugal, em 2028, fará 900 como reino independente de facto, aniversário da Batalha de São Mamede; de jure, é menos 1143 (Tratado de Zamora) que 1179, quando foi emitida a bula Manifestus Probatum, pelo papa Alexandre III.

Em 2026, o Atlântico é crucial para o nosso país (Brasil, Cabo Verde, Angola) e nunca a CPLP foi tão importante. Só precisa mesmo de existir.

terça-feira, janeiro 20, 2026

3 versos de Manuel Bandeira

«-- A Lua / Assoma à crista da montanha. / Em sua luz se banha / A solidão de vozes que segredam...» 

A Cinza das Horas (1917) - «Paisagem noturna»

segunda-feira, janeiro 19, 2026

David Benoit, «Red Baron»

3 versos de Rui Pires Cabral

«A cada país do mapa / uma mancha de cores macias / e a negra capital» 

Capitais da Solidão (2006) - «Capitais da solidão»

domingo, janeiro 18, 2026

podia ter sido pior

Depois de grande parte do país ter dispensado os serviços de Gouveia e Melo -- bravos portugueses... --, eis-nos na segunda volta. Seguro, com todos os seus defeitos, pelo menos poupa-nos à rasteirice populista de um tipo que, apesar de doutorado, nem sequer sabe falar sem dar erros gramaticais (e não é o único). Uma lástima que nem todos merecemos.

o que está a acontecer

«Mora a qui a insignificância, e até à insignificância o tempo imprime carácter. Mora aqui, paredes meias com a colegiada, o Santo, que de quando em quando sai do torpor e clama: -- O inferno! O inferno!. Mora um chapéu, uma saia, o interesse e plumas.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Este quarto não valerá a pena a senhora vê-lo, é interior, tem duas camas de leito. A senhora não gostará dele, pois não? Este aqui é um bom quarto. Cama de casal. Que às vezes já se tem deitado aí uma pessoa só. Com licença.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

«Dezoito anos!... E degredado da pátria, do amor e da família! Nunca mais o céu de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem reabilitação, nem dignidade, nem um amigo!... É triste! / O leitor decerto se compungia; e a leitora, se lhe dissessem em menos de uma linha a história daqueles dezoito anos, choraria! / Amou, perdeu-se, e morreu amando.» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

sexta-feira, janeiro 16, 2026

há o voto em Manuel João Vieira e o voto no tiririca de turno

Manuel João Vieira está longe de ser um palhaço; quem não o conhecia pôde verificá-lo no debate a onze, na RTP. Contudo, já sabemos que grande parte dos que porão a cruzinha ao lado do belo fácies deste artista será a mole de néscios que se rebola de gozo quando vota no tiririca de turno.

Há, no entanto, casos em que o voto em Vieira pode ser inteligente e uma maneira superior de manifestação:

os que desprezam e contestam o Estado e as suas instituições, por exemplo os anarquistas, embora alguns, mais possibilistas, possam votar no que consideram o mal menor -- e aí não há incoerência particularmente grave;

os monárquicos, em especial os monárquicos liberais (em sentido político) também o podem fazer, como é o caso de Luís Coimbra, um dos fundadores do então respeitável PPM, que integra a comissão de honra de Gouveia e Melo; ser contra o regime republicano e ser patriota não tem nada de incompatível;

finalmente, mas mais difícil -- atendendo ao perfil libertário de Manuel João Vieira --, alguns autoritários, saudosistas do salazarismo e afins, que possam preferir tal a fazer os habituais arnaldos nos boletins de voto. Mas esses, no fundo, já têm o seu tiririca; diz-se que vai à frente nas sondagens.

Eu, já agora, reafirmo o meu voto em Gouveia e Melo; este país não está para amadores.

2 versos de Pedro Tamen

«Tento pensar-te acima de menino / pela mão de umas horas assustadas.» 

Os Quarenta e Dois Sonetos (1973)

quinta-feira, janeiro 15, 2026

Bruce Springsteen, «Stolen Car»

3 versos de José Régio

«Olhámo-nos um dia, / E cada um de nós sonhou que achara / O par que a alma e a carne lhe pedia.» 

Poemas de Deus e do Diabo (1925 {1926]) «Adão e Eva»

quarta-feira, janeiro 14, 2026

1 verso de Antero de Quental

 «Inundem-me d'amor teus olhos -- céu e luz --» 

Primaveras Românticas (1872)

imagine-se Cotrim e os outros quando tudo arde... voto pelo seguro, mas no almirante

Ucrânia? Qual Ucrânia?... Neste momento tudo está a esfrangalhar-se, os imperialismos pujantes, a Europa de calças na mão, desprezada e detestada pela Rússia, esbofeteada pelos Estados Unidos graças à situação em que ela própria se colocou nos últimos anos: não é tanto a autonomia militar que a Europa não tem, mas a sua autonomia estratégica: nunca podendo ser uma entidade política coerente enquanto não se confederar, preferiu ser lacaia da América e comprar a inimizade da Rússia. Tem agora a paga e é bem feito.

Neste quadro de pernas para o ar, não quero ter como presidente um vazios das redes sociais ou um bonzo com décadas de política partidária. Não faço juras por Gouveia e Melo, mas sei que ninguém como ele, dentre os candidatos com possibilidade de eleição está tão preparado para estar à frente do país nestes tempos complicados, nenhum tem como ele o entendimento geohistórico, estratégico e político do país; e, assim o creio, nenhum dos outros terá a força para salvaguardar o país de ser ver enredado em guerras criadas por terceiros, para os outros morrerem por si. E acima de tudo, não tratar o povo português como uma nação de patetas.

O homem cuja acção durante a Covid19 foi um exemplo à escala mundial, o militar experimentado que insiste em não facilitar ou gestores de meia tijela e políticos palavrosos e com pouca substância? Sim, voto pelo seguro, mas no almirante.

terça-feira, janeiro 13, 2026

2 versos de José Alberto Oliveira

«Depois veio a idade do gelo, / Chegou em camionetas Bedford, todas enlameadas,» 

Peças Desirmanadas e Outra Mobília (2000) - «Camionetas Bedford»

ah, os Persas...



segunda-feira, janeiro 12, 2026

o que está a acontecer

«Paciência... paciência... Já a mentira é de outra casta, faz-se de mil cores e toda a gente a acha agradável -- Pois sim... pois sim... / Cabem aqui seres que fazem da vida um hábito e que conseguem olhar o céu com indiferença e a vida sem sobressalto, e esta mixórdia de ridículo e de figuras somíticas.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Dezoito anos! O arrebol dourado e escarlate da manhã da vida! As louçanias do coração que ainda não sonha em frutos, e todo se embalsama no perfume das flores! Dezoito anos! O amor daquela idade!  A passagem do seio de família, dos braços de mãe, dos beijos das irmãs para as carícias mais doces da virgem, que se lhe abra ao lado como flor da mesma sazão e dos mesmos aromas, e à mesma hora da vida!» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

«A senhora está a olhar pra esta sala? É grande, é, e tem esta mobília toda, e tão alta que quase chega ao tecto. Comprámo-la com a casa. Foi quando chegámos da Alemanha, já fez agora um ano. Entre por aqui, entre. Cuidado com o degrau.» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

3 versos de Fernando Assis Pacheco

«acho tudo belo a Primavera no fim as árvores da praça / adormeceria aqui sentado / repleto com a minha meia idade atordoante» 

Siquer Este Refúgio (1976) - «Quarto Bairro, Paris»

domingo, janeiro 11, 2026

sexta-feira, janeiro 09, 2026

5 versos de Fernando Jorge Fabião

«Aprender o breviário do estio. / Lavar o olhar / na luz morosa da tarde / em cada rosto / em cada pedra.»

Na Orla da tinta (2001)

o que está a acontecer

«PORTO COVO // 3.ª feira. 1 de Julho.   1975 // -- Boa-tarde, minha senhora. Tenho quartos, sim. Ainda cá não tenho ninguém. Dos meados deste mês em diante é que eles aparecem. O ano passado até me pediram para os deixar dormir no chão. E que bem dormiram alguns! Se dormiram!» Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

«Já vou quase no fim da praça quando ouço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça de ancien régime: é o nosso chefe e comandante, o capitão da empresa, o Sr. C. da T., que chega em estado.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«É a paciência, que espera hoje, amanhã, com o mesmo sorriso humilde: -- Tem paciência -- e os seus dedos ágeis tecem uma teia de ferro. Não há obstáculo que a esmoreça. -- Tem paciência -- e rodeia, volta atrás, espera ano atrás de ano, e olha com os mesmos olhos, sem expressão e o mesmo sorriso estampado.» Raul Brandão, Húmus (1917)

quinta-feira, janeiro 08, 2026

Cannonball Addeley, «Letter From Home»

4 versos de Camões

«E, porque tudo note e tudo veja, / Ao Capitão pedia que lhe dê / Mostra das fortes armas de que usavam / Quando c'os inimigos pelejavam.» 

Os Lusíadas (1572) - I, 63

quarta-feira, janeiro 07, 2026

4 versos de Manuel Bandeira

«O meu semblante está enxuto. / Mas a alma, em gotas mansas, / Chora, abismada no luto / Das minhas desesperanças...» 

A Cinza das Horas (1917) - «Cartas de meu avô»

terça-feira, janeiro 06, 2026

JornaL

Como a adversidade torna as pessoas frágeis e mais humanas. Os pulsos atados, a farda prisional, a dificuldade em mover-se, a mulher nas mesmas condições. Tenho pena do Maduro? Nenhuma. Gosto de ver o homem diminuído? Nada.

Gosto, isso sim, da Dinamarca, a pátria de Andersen, da Lego, da Carslberg; onde as mulheres são tão bonitas e uma rainha emérita se correspondia com o Tolkien. A Dinamarca não merece; o governo dinamarquês e a primeira-ministra, sim. E a UE, por arrasto.

A Gronelândia para os gronelandeses: é a minha posição de princípio sempre (tal como as Falkland para o malvinos e não para os argentinos, em especial se forem generais). Mas o destino da colónia dinamarquesa está traçado: é americano.

Donald Tusk vê tudo mal parado, porque a UE não se dá ao respeito. Teve oportunidade para isso, tivesse sabido lidar doutra forma tanto com os Estados Unidos como com a Rússia (nem teria havido guerra na Ucrânia, muito provavelmente.) Agora, parece tarde.

5 versos de Rui Knoplfi

«Para lá do court de tennis, meu pai / assobia do outro lado da infância. Irei / mais tarde, agora desço à margem do rio. / Já vai a sepultar. Espanto as rolas / que esvoaçam. Chegarei a tempo?» 

O Escriba Acocorado (1978) - «Encantações e exorcismos»

voto em Gouveia e Melo

Na minha vida adulta só por duas vezes me deparei como uma situação de grande incerteza e perigo geopolítico com implicações directas no continente europeu: o fim da Guerra Fria, com a implosão da União Soviética, e agora, com a rearrumação das grandes potências e a inflexão dos Estados Unidos que parecem ter finalmente percebido que nem a Rússia brinca nem a China anda a dormir. Por isso a política neomonroviana -- que mais do que "A América para os americanos", é a América para os norte-americanos. Claro que terão sempre a vizinhança próxima da Rússia no Árctico, com ou sem Gronelândia, que, já agora, não deverá tardar a ser anexada ou independentizada, queira ou não, de qualquer forma tutelada. Apesar de a Europa ter muito boa boca para os caprichos norte-americanos -- não batam só no Rangel; o Santos Silva fez muito pior ao embarcar(-nos) na estúpida farsa Guaidó (aí já não havia problema com a comunidade portuguesa) ou Luís Amado, com esse aborto chamado Kosovo, sem esquecer o recente Cravinho -- (apesar de a Europa ter muito boa boca,) não estou a ver como sobreviverá a Nato a um acto hostil do accionista maioritário sobre a pequena Dinamarca. Nada que preocupe Trump, que quer destruir a UE (esta, a continuar assim, alcança o desiderato sem precisar de ajuda), sem se importar muito que a Nato vá a seguir: basta-lhes umas testas de ponte para o continente, a começar pelos mais próximos: Islândia, Reino Unido (claro), Portugal (os Açores, mas não só).

Se até Trump ter mostrado, ainda antes da sua eleição, que a Nato era coisa de somenos e que alegadamente nem se importaria que a Rússia invadisse uns quantos países membros me pareceu então basófia, agora já não tenho certeza de nada.

Estamos, pois, numa situação internacional cada vez mais instável e imprevisível. Eu tenho várias razões para votar em Gouveia e Melo -- como teria também para votar em António Filipe ou mesmo em António José Seguro --, mas não quero arriscar, pela parte que me toca, e, francamente, só esta candidatura me parece vital no momento presente: Marques Mendes e Seguro demonstraram nos debates uma grande impreparação para lidar com uma eventual guerra em mais larga escala, espécie de marias-vão-com-as-outras. Com eles e Montenegro (como outrora com Costa) estaríamos envolvidos num ápice e sem darmos por isso numa guerra que nada tem que ver com os nossos interesses permanentes -- como aqui sempre tenho escrito -- e que é a posição do almirante. Nós somos um país Atlântico europeu -- não temos de nos envolver e muito menos combater nas margens do Mar Negro e morrer pelos interesses dos outros por causa da Ucrânia, que além de nem pertencer à Nato está na área de influência da Rússia, tal como a Venezuela está na área de influência dos Estados Unidos -- é assim a vida (e sempre foi assim, apesar de alguns professores de RI ou Direito Internacional terem acordado agora para a impotência da ONU ou para o fim (sic) de uma ordem internacional baseada em regras... Vão falar dessa ordem internacional à Sérvia, amputada pela força da sua província-berço, ao Iraque das armas de destruição maciça vislumbradas pelo Durão Barroso, ou à Palestina, desde sempre.

Isto não está para amadores, e espero não ter como presidente nenhum pacóvio que se deixe manobrar nos corredores de Bruxelas. O meu voto em Gouveia e Melo deve-se a essa esperança, que ele, mais do que qualquer outro, pode assegurar. O futuro o dirá.

segunda-feira, janeiro 05, 2026

3 versos de Carlos Daniel

«Sustenta-se na linha do horizonte / Sem arestas / Para fincarmos as garras» 

Os Meus Dias (2018) - «A planície»

domingo, janeiro 04, 2026

sábado, janeiro 03, 2026

este Trump é um pândego

Confesso que me fartei de rir quando ouvi a notícia da captura do Maduro. Agora é que vão ser elas.

Para já: se a legitimidade do Maduro era zero, a da María Corina também não fica lá muito bem tratada.

Insurgência ou acalmação? Novas eleições ou segue o "chavista" (salvo seja) de turno?

Como diria Alberto Pimenta, "a situação exige mais perguntaaaas!..."

os candidatos presidenciais dizem de que modo encaram o envio de tropas portuguesas para a Ucrânia

Esta a questão essencial, ornamentada por parvoíces jornalísticas que nem merecem referência, no "debate das rádios", entre a 1,35' e a 1,52'

Luís Marques Mendes, à 1h36m: no fundo não exclui nada, num quadro de paz, mas ainda é cedo para opinar, o que quer dizer que pode aceitar tudo. Nacional-redondismo, o falar imenso e dizer praticamente nada.

André Ventura, à 1h39m:  a conversa que o seu eleitorado gosta de ouvir; guerra? toma lá um manguito, parece que morre muita gente na guerra... Se o envio é justificado ou injustificado isso não interessa para nada -- não mandamos tropas mas estamos "ao lado da Ucrânia". Sim senhor! Junta-se mais uma colagem da "extrema esquerda" (quer dizer o PCP, pretendendo atingir o Bloco e o Livre, injustamente, pois sabemos que estes têm estado bem ao lado do Chega nesta questão) -- e termina, não apenas falando do dinheiro abarbatado pelos amigos do Zelensky, mas, estadista, reafirma por outras palavras: "queres tropas?, toma!" ou seja: que morram os outros, pois nós até propusemos no Parlamento classificar a Rússia como estado terrorista -- não queriam mais nada! (Burburinho de aprovação na taberna.)

António Filipe, à 1h41m: basicamente isto, que é a posição com a qual genericamente me identifico, e que será retomada por Gouveia e Melo: tropas em tempo de guerra, não; tropas em tempo de paz, também não, uma vez que a Ucrânia não está na geografia dos nossos interesses permanentes enquanto estado -- um argumento simples, mas não simplista, que só alguns analfabetos das Relações Internacionais não perceberam. Ah, e também não é um membro da Nato, a Ucrânia...

António José Seguro, à 1h42m: se dizem que é para manutenção de paz, Seguro crê, cheio de angelismo, que é porque haverá paz, e assim devemos mandar para lá "profissionais" para proteger os nossos interesses, que são também os da Europa -- oh, a impreparação!... --, e claro, tudo consensualizado entre os órgãos de soberania. O que é preciso são os consensos.

Catarina Martins, à 1h43: diz, à cautela, que como não sabemos de que paz se trata, está-se elaborar sobre nada. Quer mandar geradores para aquecer os deslocados internos. Estou com ela; porém, como visão estratégica é pouco.

Henrique Gouveia e Melo, à 1h45m: como é o único que verdadeiramente sabe do que está a falar, para além das considerações políticas, ou seja: entram na sua equação as tangíveis questões militares e operacionais, e outras, não tanto, como os interesses geoestratégicos de Portugal e também a sua História. Diz claramente que é contra -- só ele e António Filipe o dizem claramente --, e, ainda por cima, explica porquê, vão lá ouvir.

João Cotrim de Figueiredo, às 1h47m: fico espantado com o modo com que diz as maiores banalidades e até asneiras, sempre com aquele ar empreendedor e de mangas arregaçadas. A anedota do dia: corrige André Ventura naquilo em que este tinha razão e, quando interpelado, chega-se-lhe junto -- o que é preciso é evitar que os nossos rapazes vão para lá. Cotrim, cada cavadela...

Jorge Pinto, à 1h50m de debate: aproveita para falar indirectamente na Gronelândia, por causa do Direito Internacional. Mais pueril que Seguro, o que lhe interessa é soltar a Ucrânia das garras de Putin, vá-se lá saber porquê. Diz-se pacifista e comeu a sopa toda do prato que lhe puseram à frente.

O debate.



sexta-feira, janeiro 02, 2026

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Uma melancolia suave. Não desesperante. suave Compreende-se a "vontade de chorar por nada". É o súbito espaço vazio, a vertigem. A solidão. A solidão de não se estar sempre connosco. As gerações futuras deverão desembaraçar-se do tempo. Parece que já o tentam.» Conta-Corrente 1 (1980) § Machado de Assis: «Um dia de manhã, cinco depois da festa, o médico achou-o realmente mal; e foi isso que ele lhe viu na fisionomia por trás das palavras enganadoras: / -- Isto não é nada; é preciso não pensar em músicas...» Histórias sem Data (1884) -- «Cantiga de esponsais» § Aquilino Ribeiro: «Seroava-se nas lojas das vacas e aos sábados batia-se a ribaldeira até as Três Marias empalidecerem no céu. Invernos inteiriços como os dos lagartos. Mas, ah, logo que se ouvia a corcolher: tem-te lá, tem-te lá, Barrelas vazava-se por esses caminhos de Cristo em votos e romarias.»  O Malhadinhas (1922) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867): «Relativamente aos abatimentos, que o meu amigo faz aos livros que por aí tenho, são eles tamanhos que não os aceitaria eu. É certo que autorizei o Eduardo a abater, mas também com abatimento da percentagem que lhe designei. Sem isso não terão eles tão desgraçado fim. Prefiro recolhê-los porque merecem mais alguma estima. Do seu muito amigo // C. C. Branco // 30 de Julho 67.» in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947) § António Ferro: «OBRAS DO AUTOR - Alguns papéis ao vento e muitos na gaveta...» Teoria da Indiferença (1920§ Jorge Amado: «Deixo de lado o grandioso, o decisivo, o terrível, o tremendo, a dor mais profunda, a alegria infinita, assuntos para memórias de escritor importante, ilustre, fátuo e presunçoso: não vale a pena escrevê-las, não lhes encontro a graça.»  Navegação de Cabotagem (1992)

King Oliver (com Louis Armstrong), «Riverside Blues»

3 versos de Albano Martins

«Tu que esculpes / com mãos de água o corpo / e a sombra dos dias.» 

Entre a Cicuta e o Mosto (1992) 

- «Quatro perguntas, seguidas de um epílogo, ao escultor José Rodrigues»

quinta-feira, janeiro 01, 2026

as minhas melhores leituras e releituras de 2025 (tanto quanto consigo lembrar-me...)

leituras:

As Mãos Sujas, Jean-Paul Sartre

Camilo Visto por José Régio (ed. Manuel Matos Nunes)

Cartas a um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke

Chiquinho, Baltasar Lopes

Lições da História, Edgar Morin

Na Senda da Poesia, Ruy Belo

O Essencial sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage, Daniel Pires

O Príncipe com Orelhas de Burro, José Régio

Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen

O Livro dos Cavaleiros, Augusto Casimiro

Sonetos, Bocage (edição de M. Pinheiro Chagas)

Tempos Interessantes, Eric Hobsbawm


releituras:

Aquele Grande Rio Eufrates, Ruy Belo

Cardoso Pires por Cardoso Pires, José Cardoso Pires com Artur Portela, Filho

Cartas Portuguesas, Sóror Mariana Alcoforado

Frango com Ameixas, Marjane Satrapi

Homem de Palavras[s], Ruy Belo

Novas Cartas Portuguesas, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa

O Delfim, José Cardoso Pires

Sonho de uma Noite de Verão, William Shakespeare

Terra Fria, de Ferreira de Castro

Transporte no Tempo, Ruy Belo

o que está a acontecer

«São 17 deste mês de Julho, ano de graça de 1843, uma segunda-feira, dia sem nota e de boa estreia. Seis horas da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro do Paço. Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«E, assim que a noite se fechava, e a lâmpada do altar vasquejava os lampejos finais, ninguém se afoitava a transitar naquelas ruas de encruzilhada, desde que se divulgou que os demónios, a horas mortas, marinhavam, como bugios, pelo barrote onde a cabeça do regicida apodrecia.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«A ambição não avança um pé sem ter o outro assente. a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, não se lhe ouvem os passos. Na aparência é a insignificância a lei da vida: é a insignificância que governa a vila.» Raul Brandão, Húmus (1917)

2 versos de Dora Gago

«Sede de horizonte / a devorar os dias» 

Flores de Cinza (2025) - «Espera»

quarta-feira, dezembro 31, 2025

..mas depois apareceu o Jafar Panahi com um dos filmes do ano,



a desmentir, gostaria eu, o que escrevi aqui


3 versos de A. M. Pires Cabral

«Resta um pano da fachada, onde / entre as heras que comem do granito / a pedra-de-armas ainda sobrevive» 

Douro: Pizzicato e Chula (2004) - «Solar em ruínas»

música para salvar o ano #12 (e os outros anos também) «Teresa Torga», do José Afonso (Cristina Branco)